O Nascimento de um Pai
O Nascimento de um Pai
Se fosse outro pai a me contar, confesso: eu não acreditaria.
Diria que é exagero de pai estreante, desses que andam por aí vendo poesia até em fralda suja.
Mas me escuta… me dá esse crédito.
Meu primeiro filho tinha acabado de nascer.
Vieram logo os parabéns — “É um menininho!” — como se a masculinidade do rebento fosse troféu. Mas, sinceramente? Eu não dava a mínima pra isso. Era minha cria. Minha.
Como se, naquele instante de encantamento, ele não fosse também filho daquela mulher maravilhosa que, exausta e luminosa, ainda nem saíra da sala de parto.
Estávamos ali no corredor da maternidade, em frente ao aquário dos recém-nascidos. A plateia era curiosa: eu, o avô, um amigo do avô e o futuro padrinho — todos de queixo caído, olhos úmidos.
Então ela apareceu: a enfermeira, do lado de lá do vidro, como uma mestre de cerimônias a nos apresentar um monumento.
E ali estava ele, meu charutinho de gente, sendo estreado para o mundo como quem diz: “Cheguei.”
Quatro homens — babões e absolutamente desconhecidos daquele bebê — se aglomeravam diante do vidro. Mas bastou a moça virar o rostinho do menino na nossa direção… e o milagre aconteceu.
Adivinha pra quem ele olhou primeiro?
Não sei se foi porque minha cara era a mais ridiculamente emocionada… Ou se era a baba generosa escorrendo do queixo… Ou talvez — vai saber — um geniozinho recém-nascido já começando a mapear sua árvore genealógica, identificando no meu olhar o galho de onde veio o sopro da vida.
Eu sei. Você não está acreditando, né? Tá tudo bem. Não precisa acreditar.
O importante é que aquele olhar ficou cravado em mim, feito tatuagem na alma. E hoje, 38 anos depois, ainda me lembro com nitidez absurda daquele exato segundo em que, pela primeira vez na vida, eu fui olhado como pai.
𝓐𝓵𝓭𝓸 𝓓𝓮𝓵𝓵𝓪 𝓜𝓸𝓷𝓲𝓬𝓪


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